KISS NÃO É coisa do demônio, rapá!

O título é limitado, lamento muito, porque se fosse pra já começar fazendo justiça, incluiria AC/DC, Motörhead, Ozzy e muitos outros ícones do mainstream do Hard Rock e do Heavy Metal. Os do underground não são taxados assim porque o povo não conhece mesmo.

Claro que tem muita coisa por aí se propondo a isso, ou quase, né… Música oferecendo o caminho até a salvação pelo Anjo Caído e promovendo o encontro íntimo com Lúcifer tem, como a do Slayer e do bostinha do Marilyn Manson, mas definitivamente não é o caso dessa galera que simplesmente não vai à missa todo domingo nem se ajoelha na direção de Meca dezesseis vezes ao dia.

Rock’n’Roll é mais que música, é expressão da alma em atitude e especialmente arte. A atitude acaba envolvendo fatores nada aceitáveis por qualquer congregação religiosa, como uso de drogas a rodo, violência principalmente verbal e falta de pudor.

A filosofia “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll” de fato não representa uma relação horizontal, mas uma triangular, com o R’n’R acima de sexo e drogas, esses sim, num mesmo plano. Isso porque quem usa drogas ou faz sexo não necessariamente se liga tão fortemente aos outros aspectos, enquanto se entregar ao Rock implica na predeterminação tácita do uso de ambos os dois (sic) – sexo e drogas.

Não sou contra nem a favor. Defendo a linha da liberdade, e apenas isso. Cada um deve levar a vida da forma que quer, e nunca, absolutamente nunca, fico julgando um ser humano por cheirar vinte carreiras por dia, ou dar dezoito bolas por hora. Inclusive se ele se torna capaz de escrever “Brain Damage” ou “Lucy in the Sky with Diamonds”, posso até incentivar. Mas se estupra mulheres, mata crianças e corta o pinto fora (com uma machadinha cega e oxidando), nem preciso julgar, é um imbecil mesmo, um idiota, grande representante da escória. E ainda assim não tô nem aí – não estuprando, matando e cortando as minhas/meu… Mas é o tipo da coisa que se encaixa na minha filosofia de dar muito valor à MINHA vida. E uma vez acreditando que “‘SOU corpo’, e não ‘TENHO corpo'”, preciso cuidar desta merda aqui, né…

Aparece então o Kiss. Cria toda uma imagem sensacional. Os integrantes se escondem com maquiagens, são anônimos fazendo música do caralho. Vira febre. A conhecida Beatlemania vê chegar ao seu lado, e em muitos quesitos ultrapassá-la, a Kissmania. Os caras vivem na esbórnia mesmo, Gene diz ter comido mais mulheres do que realmente há no planeta e Ace só precisa abrir a boca ou dar um passo pra todo mundo sacar o bebum que é. Então mamães começam a ver seus filhos gostando disso. E não exatamente pelo que citei, mas pela música de qualidade inquestionável que produzem. E aí nascem até os “Knights In Satan Service”, “Kids In Satan Service”, os sacrifícios de animais, os espancadores de velhinhas e por aí vai.

Mas aí, meu querido… Aquelas caras de maus pra olhinhos habituados a Paul McCartney, aquele som potente e pesado pra ouvidinhos acostumados a Simon & Garfunkel e toda a postura que erguem são inaceitáveis praquelas mamães e pra sociedade em geral.

É tudo natural, e com certeza era esperado. Como qualquer movimento de vanguarda, o choque é inevitável. Apenas uma pequena parcela, tipo uns 0,1% mesmo, do planeta tem a mente aberta. E o tamanho das parcelas nessa análise é inversamente proporcional ao nível de abertura. Não tô dizendo que o Kiss foi a primeira banda a fazer esse tipo de som, mas a combinar isso a uma atitude 100% Rock’n’Roll e ter a petulância de entrar em qualquer tipo de espaço, casa, família, em proporções tão grandes, foi, com certeza.

O Kiss tem sido o exemplo mais explorado até aqui por ser uma das minhas cinco bandas preferidas, sem pestanejar, por ser das mais ricas, quantitativa e qualitativamente, em discografia e em representatividade na sociedade, e também porque eu fiz um uni-duni-tê com mais outros cinqüenta grupos e deu Kiss na cabeça. Mas enfim, Ace, Gene, Paul e Peter (e Bruce, e Mark, e Vinnie e Erics) também trazem um número incrível de canções que sairiam facilmente dos cadernos e estúdios de Lennon/McCartney, James Brown, Elvis Presley, The Byrds, Pretenders e até Carpenters.

Quando alguém quer dar uma de gostosão e falar que curte música relativamente antiga, acaba citando esses caras e mais outros ícones da música inapelavelmente boa. Mas não fala de Kiss, ou Led, ou Camisa de Vênus, ou Sabbath. Então o negócio é parar de ser direcionado pelas FM e pela galera que vai no Faustão.

Porque na década de 70 o povo torcia o nariz, mas beleza. Já hoje em dia, os axezeiros de plantão, os beatos fanáticos, os mal-aventurados desprovidos de cultura global, e todo um mundinho de gente, vêem Aerosmith, Def Leppard (há! Quer mais mela-cueca?) e até Guns n’Roses como manifestações de ódio, culto a Belzebu, simplesmente porque é Rock! Essa galera só precisa ouvir uma guitarra distorcida pra achar que o próximo passo é aparecer um bando de gente de preto e coturno, erguendo os indicadores e mindinhos e gritando “eu amo o Tinhoso!”, ou “Satã Vive!”.

Mas ainda dá pra falar do pessoal que curte Rock pela metade. Há quem pense que o metal é o caminho e nada mais presta, há quem goste das guitarras, mas sem muito peso, quem ouça Beatles mas não ouça Stones. Bicho, tá todo mundo na mesma barca. Tanto musical como pessoalmente falando.

Paul Simon é amigo de George Harrison, que é amigo de Eric Clapton, que é amigo de Jimmy Page, que é amigo de Pete Townshend, que é amigo de Rob Halford, que é amigo de Tony Iommi, que é amigo de Ronnie James Dio, que é amigo do capeta. Logo, bitolados do Deus Metal, Paul Simon e Bridge Over Troubled Water também são sensacionais, a até podem sim ser manifestações da Besta, valeu?

E Gene Simmons é cria de Paul McCartney, não menos que Steve Harris, que também é assim com Geezer Butler, e todos ouviram muito Jaco Pastorius. Então, cabecinhas pequenas do Rock formosinho, é tudo a mesma merda? O tempo passa, as coisas evoluem e tudo muda, os sons também, mas é tudo música, é tudo alma barbada, musculosa e suada.

Preconceito é coisa de gente imbecil, coisa que limita o cérebro. Já falei sobre isso nesta merda de blog. Gostar ou não gostar é uma questão simples, que pessoas com pelo menos trinta e dois gramas de cérebro conseguem resolver. Mas não se abrir pra um universo tão rico como o do Rock por pura formação mental medieval é foda. E eu não admito! Aqui não, tá entendendo!? Aqui não!

Lemmy reina.

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