O Calor de uma Perna

Voltava de ônibus pra casa. Numa noite que não era noite. Daquelas de horário de verão, sabe? Oito horas e sol no céu. Peguei o ônibus talvez cheio. Meia-dúzia em pé é cheio? Férias da Engenharia, saí com calma, fugi do rush.

Voltava do trabalho, ou melhor, do estágio. Num cansaço considerável. Daqueles que não te despejam na cama, mas te encostam em qualquer parede. Fiquei sentado o dia todo. Nada de especial aconteceu naquele, fora o inspira-diástole/sístole-expira que me mantém especialmente vivo.

Voltava de um momento bem ruim. Num ponto crucial pra saída do poço. Daqueles que não são poços, são fossas mesmo. Eu me esforcei bastante pra sair, mas ainda dava pra dizer que tava difícil. Não me sentia plenamente bem há muito tempo.

É uma viagem curta, de  entre quinze e vinte minutos, ainda mais em época boa, de final-de-ano-e-cidade-vazia e em horário pós-retorno-do-trabalhador-ao-doce-lar. Faço geralmente sentado – ou em pé nos primeiros minutos, pois no centro é grande a desova – no fundo e ao corredor, ou ao corredor e no fundo, prioridade observada. Fones nos ouvidos, olhos bem abertos. Sem fones? Até babo.

E assim estava eu naquela noite – sentado ao corredor, no fundo do ônibus, nos bancos mais altos, sobre as rodas, com a saída ao alcance do braço direito. Ok, não sou um chimpanzé, ao alcance do braço direito e de uma levantada de sete oitavos de bunda. E tinha tudo pra ser uma viagem normal, curtida na solidão do Rock’n’Roll de fundo, no conforto do espaço vago à esquerda, na segurança da visão ampla e das rotas de fuga minuciosa e instantaneamente traçadas.

E alguns quilometrozinhos se percorreram, minutinhos não contados se passaram, algumas faixas do “No More Tears” e do Zappa tocaram, até passar pela roleta uma moça.

A moça pagou a passagem – espero, andou alguns quarteirões e veio parar quase de frente pra mim, pedindo licença e, com a concessão, subindo no degrau e sentando-se à janela.

Não sei se ela tinha um belo sorriso, não sei se tinha um volumoso par de seios à mostra num decote, ou um cabelo brilhante e cheiroso, ou um perfume hipnotizante. Mas naquele sacode-balança nossas pernas se tocaram. E não ouvi sinos, não vi estrelas, não tive taquicardia, nem ereção. Ela muito provavelmente não sorriu como princesa entrando no final feliz ou como desafortunada calçando o sapatinho de cristal. Não houve qualquer expectativa. Nós não nos olhamos. Mas eu queria que aquilo não parasse, queria ficar daquele jeito pra sempre. Pelo visto ela também.

Passamos todo o tempo assim. Mas eu realmente não pensava nisso. Não senti vontade de olhar pra ela, de pegar seu telefone, de me casar, de receber um maroto bola-gato, nada. Eu só queria sentir o calor daquela perna na minha. Aquele calorzinho delicioso me fez sentir paz. Não encontrei a melhor sensação do mundo, mas por alguns minutos não tive cueca apertando, dinheiro pouco, ex escrota, cachorro doente, disciplina pendente. Essa mulher foi, por um tempo, tudo que eu queria na vida.

E não precisei amá-la, nem mesmo jurar isso. Não quis ser amado também, entende? Não precisamos transar, nem mesmo olhei pro rosto dela. Talvez tivesse dez anos a mais que eu, talvez nem maior de idade fosse.

Mas sabe… Aquilo não era uma pessoa que faz parte da minha vida. Muito menos alguém de quem dependo, até porque isso não existe. E não era um corpo, puramente carne, osso e desejo vital. Não sei… Era energia. Era parte de mim no todo, mas no todo supremo, acima do conceito de universo. E era descartável, como tudo deve ser. O que vai definir essa descartabilidade é aonde eu quero chegar, onde está minha felicidade. Genericamente está na minha paz.

Mundo concreto. Ela desceu primeiro. Pediu licença, não foi preciso que me levantasse, assenti com a cabeça e ela passou. Passou pra seguir a vida, assim como fiquei também pra seguir. E não nos vimos nunca mais? É, talvez. Já disse que não sei quem ela é, nem como é, então, tanto faz. Sem compromisso algum, ninguém ligou no dia seguinte, ninguém comentou, ninguém agradeceu, ainda que a gratidão, instintivamente, exista.

Cheguei em casa pouco depois. Não estava como uma pluma,  como uma criança no natal, ou *insira aqui metáfora estúpida*. Mas sem tristeza, sem peso, fechei a cortina.

Porque corpo, alma, energia, espírito, carne, desejo, felicidade, blá, blá e blá… Esquece, bicho, já chega… Não precisa pensar. Por favor, é só esse calor… O calor de uma perna… Um calorzinho… Gostoso… Tão… Tão…

3 opiniões sobre “O Calor de uma Perna

  1. Entendi! Belos artigos você tem aqui Mr. Suco. Muito belos mesmo. Seus pensamentos são fulminantes, não?! Um belo abraço pra você.

  2. Gostei da historinha. Isso é bom quando acontece, só que eu nunca consegui descrever dessa maneira. É issu ae, continue assim.

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