Cante “Garota de Ipanema” que Eu Carimbo

Mais uma crônica não-minha. Mais uma sensacional, tal qual o autor.

“‘Apertem os cintos. Em instantes pousaremos no Aeroporto Internacional de Miami’, dizia a comissária de bordo, com aquela voz cantada e sensual.

A ansiedade toma conta e a adrenalina sobe. Será que vamos passar pela imigração? É claro, temos documentos, passaportes válidos, visto americano, cartas-convites, declarações, fotos do Luda, do Papa, do Bush, tudo. E o mais importante: temos algumas frases prontas e decoradas em Inglês para falar para o guarda. ‘Estamos indo para Minneapolis, participar do projeto Songs of Hope 2005, para o qual fomos convidados.’ ‘Temos as cartas-convites’. ‘A Paula é minha filha e o Bruno é meu amigo’. ‘Vamos ficar quarenta e dois dias e voltaremos ao final do projeto, no dia primeiro de agosto’. ‘The book is on the table!’… ‘Não ia haver problema nenhum’ – dizia eu para mim mesmo em pensamento, mas no fundo, no fundo…

Seis e meia da manhã. Gosto de corrimão do INSS na boca e cara amarrotada. Foram os corredores mais longos dentro de um aeroporto por que já passei. Não acabava nunca. ‘Onde está o guarda? Será que ele é legal, amistoso? Por que fui assistir ao filme ‘O Terminal’ bem antes da viagem? Será que vamos conseguir um lugarzinho no aeroporto para acampar, como o Tom Hanks? O que será que a Fofa está fazendo agora? Por que todo mundo está correndo na mesma direção? Será que o caminho é este mesmo?’

Ah! Lá estão os famigerados portões e os guardas. Todo mundo estava mais sério do que cachorro em canoa. Ninguém esboçava um mísero sorriso. Ninguém falava nada. Só conferiam documentos e, pelo que parecia, continuavam a decorar suas frases para falar com os caras. Então chega a nossa vez. Por que o nosso guarda tinha de ser aquele de um metro e noventa e cinco de altura, oitenta de largura, vermelho americano e cara fechada? Gastando meu Inglês, o inevitável e temido diálogo começou:

‘Bom dia!’

Silêncio sepulcral. ‘O bondoso guardinha não deve ter ouvido meu bom dia’ – pensei. Continuou mexendo em papéis sobre o balcão e de cabeça baixa.

‘Passaportes!’ – ordenou ainda de cabeça baixa, sem nos olhar. Ele deveria estar muito ocupado, é claro. Deve ser por isso que não nos olhou. Acho que é um cara legal, apesar da voz de trovão em noite de tempestade.

‘Aqui estão nossos passaportes, senhor.’ – essa frase eu também tinha decorado!

‘Aonde vocês estão indo?’

‘Estamos indo para Minneapolis, participar do projeto Songs of Hope 2005, para o qual fomos convidados. Temos as cartas-convites.’

Beleza! Essa foi fácil. Como havia decorado. Até agora tudo bem. Já estava até nos vendo entrar numa verdadeira loja do McDonalds, pedindo um Big Mac gigante, com um copinho daqueles de 800 ml de Coca verdadeiramente americana, igualzinho nos filmes! Estava fácil demais.

‘Quem são essas crianças?’ – perguntou ele, finalmente nos olhando.

‘A Paula é minha filha e o Bruno é meu amigo!’

Mais uma na moleza. Quanto será que custa mesmo um Big Mac lá em Minneapolis? Não vou nem gastar cartão, quero gastar é dólar!

‘Olá, Paula, quem é este homem?’

Epa! Isso não estava planejado. Não é possível, a mulher dele deve ter dormido de calça jeans. A Paula não entendeu bulufas e eu tive de falar para ela a resposta. Mas a resposta era fácil: ‘Este homem é meu pai.’  – o brutamontes baixou de novo a cabeça e continuou.

‘Olá, Bruno, quem é este homem?’

Ih! Que isso? Estava ficado complicado. Que negócio é esse de ficar perguntando as coisas para as criancinhas? Quem esse guarda pensa que é? Pedofilia nos EUA é crime grave. Vou processar esse sem-vergonha e descarado quando passar por esse portão miserável, achar um advogado não vai ser nada difícil neste país.

‘Este homem é meu amigo!’ – respondeu o Bruno prontamente, pois entendia e falava Inglês razoavelmente. Graças a Deus o menino é bem esperto. Vou pagar dois Big Mac pra ele.

‘Onde está a carta do Bruno?’ – perguntou diretamente para mim, me olhando bem dentro dos olhos.

‘Aqui está, oficial!’ – disse eu puxando o saco dele. Afinal, guardinhas comuns gostam de ser chamados de oficiais. E entreguei a carta do projeto Songs of Hope convidando o Bruno a participar.

‘NÃO! Não é esta carta. Preciso da outra carta. A carta que autoriza o Bruno a realizar viagem internacional desacompanhado dos pais.’

Custei a entender o que o cara estava dizendo e, quando entendi… P.Q.P.! A porcaria da carta que ele queria era aquela que tinha ficado com a PF em São Paulo no momento do embarque. A carta tinha sido expedida por um juiz de menores no Brasil em uma só via e tinha ficado na PF. Tô lascado. Vamos voltar. E com muito custo, expliquei o fato para o rapazinho, que insistia em pedir a porcaria da carta que estava em São Paulo.

O cara já era feio e ficou mais ainda depois de fechar a cara e balançar a cabeça da esquerda para a direita e da direita para a esquerda umas dez vezes, dizendo que a carta deveria ser apresentada nos EUA e não no Brasil. Minhas pernas bambearam e a dose alta de adrenalina me fez mudar de assunto, como que por instinto, para amainar a situação. Então eu disse que a Paula iria cantar Garota de Ipanema e o Bruno iria tocar flauta. Aí o cara, inesperadamente, olhando para os passaportes e com um carimbaço na mão, disse:

‘Paula, cante Garota de Ipanema que eu carimbo!’

Não acreditei. O cara sabia sorrir. Foi aí que vi o Big Mac no fim do túnel. Estava quentinho e cheiroso. Então, traduzi para a Paula e a mandei cantar. Era nossa passagem pela porta estreita, mas ela ficou envergonhada e disse que não cantaria ali de jeito nenhum, nem pensar, não ia pagar mico. Depois de alguma insistência minha e caras de vergonha dela, o guarda viu meu desespero e falou:

‘Bruno, toque a flauta que eu carimbo!’

Minhas esperanças de passar pelo portal misterioso ficaram agora em cima do Bruno, mas ele também fez caras e ai-ai-ais e nem abriu a caixa do instrumento, que carregava em uma das mãos. Mas, quando eu menos esperava, o general carimbou os três passaportes e bradou:

‘Bem-vindos aos Estados Unidos da América!'”

Autor: E. A. L.

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