Sobrevivi

Em época de Pop Rock Brasil (festival de música como outro qualquer, relatos portanto genéricos, para sentirem-se bem adeptos tanto do Axé Brasil, como do Rock in Rio, como do Axé in Lisboa, como do Woodstock) aqui em BH, lanço mão desta pérola sensacional:

“Sem dúvida, meu amigo. Pensei não estar aqui hoje para lhe escrever.

Antes de ler, prometa-me que não vai rir da desgraça do seu amigo. Confio em você. Não ria, por favor. É sério.

O camarote que eu fiquei se chamava Ospício, com O mesmo e S ao contrário. Não tinha melhor nome para colocarem na coisa. Não estou “zuando”, mas foram as piores 12 horas que passei na minha vida. Tensão, frio, desconforto, fome e por aí vai. Sabe aquela máxima “peça para entrar e reze para sair”? É a frase que mais define o que passamos lá. Digo passamos, porque as meninas também rezaram na hora de sair.

O bicho pegou mesmo. Imagine 55 mil pessoas saindo ao mesmo tempo do estádio; imagine 99 % desse povo bêbado e drogado; imagine duas brigas de negões contra aqueles caras “pit bull” sem camisa e com tatuagens imensas nas costas; imagine o clarão que faz em volta das brigas e como nós, simples raquíticos mortais, como ficamos espremidos na multidão, acuados; imagine nossos anjos da guarda desesperados ouvindo nossas – prováveis últimas – preces… Meu velho, isso sem contar o terrível som alto e distorcido. Acústica péssima.

Teve um momento em que eu pensei nos soldados americanos no Iraque. Eu tive pena deles. É mesmo, eu me senti um deles. E tive pena de mim também. Só que eles têm armas e roupas especiais. Eles sabem lutar e atirar. Foram treinados para isso. E eu? Não sei nada. Não sei nem mesmo cantar as malditas músicas do Marcelo D2. A única coisa que eu sei é correr, mas pra onde? Se eu corresse para a pista, poderia ser pisoteado ou agarrado por um gay qualquer. Se eu corresse para a arquibancada escura, sei lá. Se eu corresse para o camarote open bar, pelo menos eu tomaria umas e outras.

Tem mais: passei um mal danado lá. Por volta das 7 da noite, tive uma dor-de-cabeça daquelas. Acabei vomitando um maldito TedBurgerPopRock de dez reais! Eu não devia ter comido aquela porcaria. Eu sabia. “Você vai passar mal, seu idiota” – Falava de mim para comigo enquanto mordia aquela borracha cheia de carnes e folhas esquisitas. Era eu vomitando, o Marcedo D2 berrando e a turma me vendo e falando: “tá ruim aí, heim chegado…”, “vai morrer aí…”, “cachaça e loló é só pra quem pode, babaca!”. É duro mas é verdade, meu amigo.

De vez em quando eu olhava pra arquibancada e pensava nas suas filhas lá. Pensei também que você era doido de deixar as duas irem ao inferno sozinhas. Mas parecia que as coisas por lá estavam mais tranqüilas do que na pista e no camarote. Pelo menos lá tinha cadeira para se sentar. O que eu mais queria naquela noite era uma mísera cadeira para sentar, mas não tinha nenhuma. O jeito era sentar no chão, em cima de cuspe, mijo e cerveja.

Teve uma hora em que decidi me internar no posto médico de urgência, onde a cada 5 minutos chegava um de maca, retirado do meio da multidão. Quase todos alcoolizados e drogados. Um ou outro pisoteado. Mas isso tudo era perfeitamente normal naquele umbral. Quando cheguei ao posto de urgência, fiquei com vergonha de pedir uma Neosaldina, mas quem sabia da minha dor-de-cabeça era eu mesmo. Então, dane-se. Me dá uma Neosaldina aí, por favor, que eu estou morrendo de dor. É claro, venha até aqui e me dê seus dados. A moça preenche o formulário e me dá uma Novalgina, que não adianta nada. Eu detesto Novalgina. Não resolve o meu problema. Minha dor só resolve com Neosaldina e os idiotas do serviço de urgência só têm Novalgina. Não é possível, meu amigo. Nem uma mísera Neosaldina eles têm. Fiquei sentado numa preciosa cadeira que eu encontrei num canto e fiquei olhando a turma chegar, os estropiados. Pensei assim: “tomara que morram. Não tô nem aí. Quem mandou tomar cachaça…” – Minha consciência estava tão abafada que nem tive piedade daquelas almas desgraçadas.

Mas isso não é tudo. Quando nos encontramos conto as piores partes da famigerada noite no PopRock Brassssssssiiiiiiiiiillllllll!!!”

Autor: E. A. L.

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